Natal

Arvore de Natal
Olha ali para a janela,
Mira, que árvore divina,
Coberta de luz, que bela!
Vestida de prata fina.
É um céu posto a um cantinho,
Esta árvore de Natal
Galáxias, 'strelas fulgindo
Bela-- encanto sideral
É uma fada encantada,
Encantando o mundo assim.
É filha do Sol, sonhada,
Jóia de luz, serafim
Com seu vestido rodado,
Com seu vestido de tule
Parece cantar um fado,
Com lantejoulas de azul
Fadista da noite fria
Que tens tu para cantar?
Serena envolta em magia
Pareces mais a sonhar.
Lá no mato tu deixaste
O teu corpo, a vida deste;
Uma clareira formaste,
A luz que te fez, trouxeste
Um infante de louça dorme
Ao teus pés, tu rainha
Mata toda a sede e fome
Que divina criancinha!
Árvore de Natal enfeitada
Como tu há-de brilhar
Na noite, serena, encantada
A sua luz, seu sonhar
Pregá-lo-ão num madeiro
O erguerão qual ladrão
Será luz, Deus verdadeiro
Feito homem, nosso irmão
Ó enfeitada árvore, fadista
Linda árvore de Natal
Cheia de graça, encanto, artista
Mistério original
Silverio Gabriel de Melo
Somos de Deus
Somos de Deus como a pele é para um corpo
O que sentimos, Deus o sente em sua pele
Se o não sentimos, se o temos como um corpo morto
Como pode alguém dizer “Eu sou”, sem a Vida Desse?
Se Ele não existe, para que existimos nós então?
Se Ele não é, para que é que tudo é o que é afinal?
Há que haver para tudo que é ou se diz ser uma razão
Essa razão por razão de ser é a Razão Fundamental.
Eu sou porque há essa Razão que me faz raciocinar
Se raciocínio é porque essa Razão assim o determina
O meu raciocíno é simples fruto desse pensar
Dessa Razão que tudo cria, Razão divina.
Oh Deus, eu creio, espero e amo; convicto estou
Que em eu sendo, há que haver Esse “Eu Sou Quem Sou”.
No outro dia quando saí da missa dominical, mesmo em frente à igreja notei um gato estendido sobre a tampa do motor de um carro. Uma colega minha há dois anos quando pôs o carro a funcionar de manhã matou um gato que se tinha introduzido no motor e lá estava a dormir. Eu próprio, na Alemanha, tive a mesma experiência quando um animalzinho qualquer se introduziu no motor, roeu os canos e fez um ninho com o material isolador.
Como todos sabemos, o gato, ao contrário do cão, não foi domesticado pelo homem. Ele próprio se domesticou. No Egipto, os primeiros gatos, devido à presença dos celeiros, começaram a aproximar-se para se alimentarem da muita ratazana que havia por ali. Aos poucos procuravam ou a sombra ou o conforto das casas. Com o tempo habituaram-se à presença do homem e ao viver na sua companhia.Ao contrário dos cães, os gatos têm uma natureza independente, caprichosa, são donos de si próprios.Só se aproximam quando querem ser servidos. Nós somos quem eles escolhem para que tomemos conta deles. O seu roçar contra nós é uma forma de nos marcar ou assinalar como sua propriedade. Para eles, nós pertecemo-lhes e não ao contrário. Dessa forma podemos dizer que o gato se domesticou a si próprio ou se humanizou por conta própria.
Outra particularidade da natureza dos gatos é que dormem horas a fio e sentem a necessidade de calor. O gato estendido sobre a capota do carro em frente à igreja numa noite de domingo de fim de Outono estava simplesmente a obedecer a essa necessidade intrínseca à sua natureza.Quando ali o observei, sorri porque compreendi logo o que um certo cientista feito teólogo e filósofo dos nossos dias, por nome Dean H. Hamer, quer dizer com a sua teoria exposta no livro The God Gene. Ele mantém que toda a pessoa humana é atraída a Deus por uma razão muito básica à natureza humana, assim como o calor é para o gato.
Segundo ele, a pessoa humana possui um gene que nos predispõe à procura, fome e sede de um Ser superior ou “Deus.” Isso é, a nossa natureza humana quer queiramos, quer não, liga-nos à realidade de Deus de uma tal forma, que sentimos uma carência que mais tarde ou mais cedo nos subjuga ou atrai a essa realidade — que não seja à hora da morte.
Da mesma forma que está na nossa natureza humana o andarmos erectos, o falarmos, chorarmos e rirmos; sermos como nenhuma outra criatura sobre este planeta, também procuramos a “Luz”, a “Verdade,” e o significado da “Vida”, porque somos de Deus desde o príncipio. Dessa forma, assim como o gato busca o calor onde quer que o encontra, nós buscamos algo que tenha a dizer connosco de uma forma intrínseca. Nesta época do ano em que o mundo mergulha em escuridão e frio, rodeamo-nos, pois, de um ambiente de luzes, de conforto, de esperança, de amizade, ternura e paz — de pura e simples “Humanidade.”Isso é, somos de Deus porque Deus é nosso e nós somos de Deus. Fazemo-nos propriedade de Deus ou fazemos Deus a nossa propriedade. Por Deus viver dentro da gente, nós o procuramos por todo o lado e em todo o lado em que ele se manifesta, o descobrimos.Por uns meros dias criamos o nosso presépio, celebramos a divindade da própria natureza Humana na pessoa de um Menino Jesus ou de um Pai Natal bonacheirão. Assim, afirmamos a nossa associação, parceria ou aliança com o divino; tal qual esse gato sobre a tampa do motor do carro numa noite fria de Outono, se deleita no calor que daí vem, como se do próprio Sol fosse. Que compreendemos Deus e o divino, talvez tanto como os gatos nos compreendem a nós. De qualquer forma está na nossa natureza o procurarmos, alinharmos com o divino, especialmente nesta estação do ano quando a escuridão e o frio parecem tudo querer dominar.
Silvério Gabriel de MeloTerceira, Açores